Sem Desculpas


Sem Desculpas

Ontem meu irmão mais novo fez 58 anos.
Eu queria desejar-lhe felicidades, mas isso me parece impossível, porque ele é um infeliz.
E talvez eu também tenha sido, porque foi ele quem escolhi como parceiro desde a infância.
Muitas vezes, ele se provou alguém de moral flácida.
Mas o amor é assim: queremos encontrar desculpas onde as verdades mostram culpa.
Vezes sem fim, alguém que se julgava melhor provou-se o pior.
Então me veio à mente uma imagem antiga, talvez até batida: um número pequeno, quase irrelevante.
Um.
Poderia ser nove, e ainda assim não seria muito maior.
Mas o tempo coloca zeros atrás desse número.
E, quando os zeros se acumulam, aquele número pequeno assume valor imenso.
Assim também acontece com a moral.
Ela pode parecer pouca coisa no início, um detalhe mínimo,
quase invisível.
Mas, se esse primeiro número for removido, se aquilo que sustentava todos os zeros não existir, então tudo o que veio depois perde valor.
Pior: transforma-se em deformação.
Porque o tempo não salva aquilo que nasceu sem moral.
Apenas aumenta o tamanho da sua falta.
Essa ideia não é original.
Muito pelo contrário.
Vem batida de anos.
Mas eu me lembrei dela agora 
porque, pela primeira vez, ela não veio como pensamento.
Veio contando a minha história.

Dante Locatelli 

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